segunda-feira, 14 de junho de 2010
A comunicação como acção dramática (Goffman)
- às rotinas : repetição dos modelos do comportamento que conferem a forma e a estrutura à nossa actividade;
- à construção social da realidade : a realidade não é fixa ou estática, mas é recriada continuamente através das interacções sociais;
- ao modo como os modelos de interacção social influenciam os sistemas e as instituições de dimensão mais ampla.
A interacção
Interacção : “ a influência recíproca dos indivíduos sobre as acções uns dos outros numa situação de presença física imediata “
- O todo das acções recíprocas e directas na presença física de outros indivíduos ou, pelo menos, dentro do seu campo de visão ou auditivo
- As interacções sociais constituem o cruzamento entre as instituições e as decisões individuais: são o “espelho” das relações, do poder, da autoridade, da organização.
- >As interacções centram-se em pequenos processos mas estes estão ligados a outros de maior amplitude.
- O material do estudo do Goffman é a observação do comportamento, como o todo das proposições faladas, dos olhares, gestos e atitudes com que os indivíduos enfrentam e definem uma situação
- Estes comportamentos são guiados por uma capacidade prática inconsciente. As acções, como factos sociais, tornam-se necessárias para os indivíduos, constituindo “uma ordem de interacção”
- Goffman pretende compilar uma espécie de gramática dos comportamentos
O Eu comunicativo
- O Eu é contingente, dependendo das circunstâncias e rituais da interacção: apresentamos o Eu “certo” segundo as normas de situações sociais específicas.
- O modelo de Goffman supõe que os seres humanos desejam aprovação. Desejamos ser aplaudidos, portanto apresentamos a melhor face que podemos.
- A aparência é importante.
- Não só “agimos”, como “actuamos” pela comunicação.
- Exprimimos o modo como queremos ser vistos.
- Temos em mente os significados dos nossos actos.
- Assumimos o papel do outro.
- Esperamos continuidade do comportamento social.
- As nossas acções comunicativas têm padrões conforme o nosso status e os grupos a que pertencemos.
- O Eu constrói-se na interacção comunicativa.
- A interacção social tem padrões – não é aberta a toda e qualquer definição e negociação do significado. Tem de ser feita:
- com outras pessoas;
- com os constrangimentos estruturais que afectam as pessoas (status, papéis)
Teoria da comunicação em Goffman
Teoria : estrutura dos encontros sociais que podem ser investigados construindo “os quadros (os pontos de referência) usados pelas pessoas para interpretar e “organizar” as interacções.
Perspectiva : interaccionista simbólica
Abordagem : “dramatúrgica:modo de apresentação usado pelo actor e sua significação no contexto social mais vasto. A interacção é estudada como “um desempenho dramático”, formado pelo ambiente e pelo “público”, construída para fornecer aos outros “impressões”.
Método
“A perspectiva que é usada neste trabalho é a da representação teatral, os princípios correspondentes são de ordem dramática. Considerarei o modo como o indivíduo, em situações de trabalho individuais, se apresenta a si próprio e à sua actividade perante os outros.”
A Comunicação como Drama Teatral
Para Goffman, a sociedade é como um palco onde os actores, até certo ponto, premeditadamente manipulam e retêm informação sobre si, para garantir uma impressão favorável.
A vida social pode ser comparada a um palco onde os actores se mostram em representação, desempenhando ‘papéis’ de acordo com a situação.
A metáfora do teatro não implica que a vida social seja fictícia e que os actores estejam necessariamente conscientes de ‘actuar’.
Pelo contrário, quase sempre definimos e vivemos a situação de forma espontânea.
- Na vida quotidiana há problemas semelhantes aos experienciados pelos actores num palco – tornar as suas acções credíveis e convincentes para a audiência.
- Os indivíduos apresentam uma impressão de si próprios através das suas capacidades expressivas, criando uma ‘frente’: uma imagem do Eu que se projecta sobre os outros.
Para Goffman, o nosso Eu não é a causa das nossas performances de personagem, é o efeito. Poderíamos ver a questão como:
Eu ------> Performance teatral (desempenho)
Goffman inverte:
Desempenho -----> Eu
Um papel central para a comunicação
- Capacidade expressiva através da qual os indivíduos desenvolvem a gestão das impressões que os outros recebem deles.
- O desempenho de um indivíduo será a forma como age, consciente de que os outros presenciam essa acção, ou seja, “tentando controlar a impressão que estes recebem da situação”
- Os indivíduos criam a definição de uma situação social que os outros devem aceitar à partida.
Interacção e definição da situação
- O mundo social é precário e a ordem social nunca está totalmente ganha.
- A interacção é o momento fundamental onde definimos a situação, no encontro com os outros.
- A interacção é também um jogo constante de apresentações de nós próprios/as e de esquadrinhamento do outro durante a intersecção.
Definição da situação
- Uma das primeiras tarefas de todo o encontro social é a definição da situação que leva a uma certa distribuição dos lugares e dos papéis ocupados por cada um dos intervenientes.
- Ao mesmo tempo que definimos a situação projectamos uma imagem de nós próprios/as.
- A comunicação é central a este processo.
A comunicação como interacção
Um acto. Tudo o que fazemos é um acto. Todas e quaisquer acções implicam acções. Algumas acções só têm implicações para nós. Ex: comer muito engorda.
A maioria é implicada por alguma relação com os outros, que constitui alguma forma de interacção social. A compreensão humana só é possível pela interacção social.
Interacção:
- O processo de estar consciente dos outros quando actuamos e de modificar o nosso comportamento conforme as respostas dos outros;
- O processo pelo qual as pessoas actuam para e em respota umas às outras;
- Isto inclui todo e qualquer comportamento social, incluindo a interacção com a cultura material (livros, símbolos, etc.), independentemente da comunicação com outro ser humano.
- > A interacção social não será disruptiva (pois as pessoas tendem a manter e definir uma situação) ou desordenada, para que possamos definir e interpretar as situações com que somos confrontados.
Ex: Quando, por alguma razão, fazemos de conta que não ouvimos o que alguém diz, para não causar mais disrupção.
- > Nós tendemos a manter uma determinada ordem social.
(INTER)ACÇÃO-SIMBÓLICA
O que é o símbolo?
Algo que significativamente representa algo. Ex: um sinal, gesto, língua, acção comportamental…
O que é a interacção simbólica?
A comunicação que se realiza entre pessoas por símbolos (face-a-face, textos, sinais de tráfego, música, etc.)
- Construímos socialmente significados ligados a todos os aspectos do mundo físico e social à nossa volta e respondemos aos significados como se eles fossem mais. Interpretamos constantemente os significados das nossas próprias acções e dos outros.
- Intepretamos os acontecimentos da vida quotidiana em termos de categorias e definições fornecidos pela nossa cultura. Não basta saber a língua (o código), a nossa cultura diz-nos como utilizar os símbolos nas determinadas circunstâncias.
- As pessoas atribuem arbitrariamente o significado aos símbolos (alfanumérico, risos, gestos, sinais) e concordam sobre esse significado.
- Este processo só pode ser aprendido pela interacção social com outros, em toda a nossa socialização.
Comunicação
No interaccionismo simbólico é a actividade humana relacional em que se põem em jogo as circunstâncias subjectivas (subjectividades) que, a partir de conhecimentos mais ou menos partilhados, consegue compreender de forma semelhante as estratégias básicas dos comportamentos no mundo da vida e que, em resultado disso, conseguem os indivíduos compreender-se mutuamente e conferir sentidos semelhantes ao seu ambiente.
Ex: Ir para a fila enquanto se espera para almoçar na cantina, evita conflitos.
- A comunicação é a base de todas as relações sociais;
- Os processos de comunicação implicam, antes de mais, interacção entre sujeitos distintos que, para se compreenderem, estabelecem vínculos no mundo da vida quotidiana.
- Estes vínculos são constituídos por acções dirigidas ao reconhecimento do outro, a quem reconhecemos um carácter de pessoa similar a nós mesmos (incluir na sociedade pessoas diferentes, que reconhecemos como iguais).
- Isto é o fundamento da intersubjectivdade que permite que os processos de interacção se estabeleçam de forma efectiva.
Símbolos : sons, cores e acontecimentos que representam alguma coisa e que são essenciais para compreender a interacção social. A linguagem é um dos símbolos significantes mais poderosos e importantes criada pelos seres humanos, porque nos permite comunicar através de significados e palavras partilhados.
Interaccionismo simbólico
- Dedica-se ao estudo da microacção;
- Desenvolvido por Mead, Goffman, Cooley, Blumer, Becker;
- Concentra-se nas formas quotidianas da interacção social entre pessoas, em vez de nos comportamentos sociais mais amplos. Defende que os seres humanos vivem num mundo de objectos – acções, coisas materiais, pessoas … - é preciso depois estabelecer acordo sobre o significado deles.
- Os comportamentos dos seres humanos são baseados numa compreensão comum e o uso destes objectos, especialmente os símbolos, nas interacções diárias (ex: comunicação não verbal).
Para uma interacção se realizar :
- Cada indivíduo deve determinar a intenção das acções do outro;
- Cada indivíduo decide, então, a sua própria resposta com base naquela intenção.
Foco do interaccionismo
- É a acção, a intesubjectividade
- Estudo da relação funcional entre o modo como nos vemos (auto-definição), como vemos os outros (percepção interpessoal) e como pensamos que os outros nos vêem;
- Entender a realidade social e a sociedade da perspectiva dos actores que interpretam o seu mundo pela e na interacção social;
- Tem a ver com:
- interacção (significação social)
- construção do mundo social
- identidade (como nos apresentamos aos outros, como queremos que eles nos vejam)
- comportamento significativo
- como a significação é construída na relação entre os sujeitos.
- Nível de análise = micro;
- Foco na linguagem, gestos e situações sociais e na atribuição de significado às situações.
Comunicação não verbal
- 93% do que comunicamos não é verbal;
- gestos, microexpressões;
- primeiro indicador: a forma como o corpo se mexe;
- importância da normalização: é necessário saber o que é normal para a pessoa ou situação, para poder ler correctamente a linguagem do corpo;
- “tocar-se” é uma atitude que mostra desconforto perante uma situação e a pessoa procura reconfortar-se, confiar em si mesmo.
Proxémia
- Parte do estudo da comunicação verbal;
- Estuda a distância entre as pessoas (distância social);
- (parte do estudo da escola de Palo Alto)
Cinéisa (Quinésia) : o estudo dos gestos não verbais, expressões faciais, contacto visual e postura do corpo.
Proxémia : o estudo do uso do espaço, toque e distância como características de comunicação não verbal.
Sequência da pragmática da comunicação: discute-se a comunicação para além da comunicação verbal e a forma como esses factores não verbais estão relacionados com a cultura.
Edward T. Hall : Espaço e Tempo
TEMPO
- Diferentes culturas: normas diferentes relativas ao tempo, amizade, negócios escritos/orais, etc.
- Ex. culturas que não consideram que as horas de uma reunião signifiquem exactamente essas mesmas horas
ESPAÇO
- A percepção que o Homem tem do espaço: relacionada com a percepção de si próprio.
- Tem uma percepção visual, cinestésica, táctil, térmica, que pode ser favorecida ou inibida no seu desenvolvimento pelo meio.
- Espaço: fronteira invisível à volta de um indivíduo, que se considera “pessoal”.
- Pode incluir uma área ou objectos (“território” desse indivíduo)
- Pode ser percebido não só visualmente mas “pelas orelhas, espaço termal pela pele, espaço cinestésico pelos músculos e espaço olfactivo pelo nariz” (Hall: 1990, p.11)
Fronteiras Invisíveis (bolhas)
- Todos os seres vivos têm uma fronteira física. E cada ser vivo é rodeado por uma série de fronteiras invisíveis.
- Fronteiras comunicacionais.
- A bolha invisível de cada pessoa do espaço expande-se e contrai-se. O tamanho depende:
- da sua relação com os que estão à sua volta;
- do seu estado emocional;
- do seu contexto cultural;
- da sua actividade
Na Europa do norte (Alemanha, Escandinávia, G.B – clima frio): as “bolhas” das pessoas são bastante grandes. À medida que nos movemos para Sul (França, Itália, Grécia, Espanha e Portugal – clima quente), as “bolhas” das pessoas são cada vez mais pequenas.
AXIOMAS DA COMUNICAÇÃO
Numa situação de interacção, todo o comportamento humano tem valor de mensagem.
- A unidade da comunicação é o comportamento, que constitui uma mensagem;
- Dado que todo o comportamento é comunicação, a mensagem é constituída por um conjunto de modos de comportamento: verbais, fonais, gestuais, contextuais…
- Estes comportamentos, no seu conjunto, condicional reciprocamente outros significados.
- > Uma propriedade básica do comportamento humano é que ele não tem oposto – não existe um “não-comportamento”, pois um indivíduo não pode não se comportar. Logo, é impossível o indivíduo não comunicar.
2º Axioma : a comunicação tem um conteúdo e uma relação, sendo esta uma metacomunicação.
- Um acto comunicativo não se limita a transferir informação – conteúdo – mas, simultaneamente, impõe um comportamento ao destinatário – relação.
- O conteúdo de uma mensagem pode consistir em qualquer coisa comunicável, independentemente de ser verdadeira ou falsa, válida, inválida ou indeterminável.
- A relação refere-se ao tipo de mensagem e como deve ela ser considerada. Portanto, em última instância, refere-se às relações entre os agentes comunicantes.
3º Axioma : a natureza de uma relação depende da pontuação das sequências comunicacionais
- A “pontuação” organiza os eventos comportamentais (logo, comunicacionais) e, portanto, é vital para as interacções em curso.
- Em consequência, a discordância sobre como pontuar a sequência de eventos provoca conflitos quanto às relações.
4º Axioma : os seres humanos comunicam digital e analogicamente. Na comunicação humana podemos representar as realidades ausentes de duas formas:
- através de um símbolo que tenha com a realidade que representa uma relação de analogia, mantendo semelhança com ela – comunicação analógica;
- através de um signo linguístico (ou não), instituído de forma convencional – mantém com a realidade que representa uma relação totalmente arbitrária – comunicação digital.
A comunicação não verbal é analógica, englobando:
- movimentos corporais, mímica, inflexões de voz, sucessão, ritmo e entoação das palavras;
- quaisquer outros indicíos dos contextos em que ocorrem as interacções.
5º Axioma : as permutas comunicacionais são simétricas ou complementares, conforme se baseiam na igualdade ou na diferença.
- Na interacção simétrica, os agentes tendem a reflectir o comportamento um do outro. A interacção caracteriza-se pela igualdade e minimização da diferença;
- Na interacção complementar, o comportamento de um parceiro complementa o do outro, maximizando-se a diferença. A relação complementar admite, assim, duas posições:
- uma posição superior, detentora de poder;
- outra posição, inferior, de subordinação.
ESCOLA DE PALO ALTO II
Na comunicação humana podemos representar as realidades ausentes usando dois tipos de códigos:
Os códigos digitais que possuem uma sintaxe definida e complexa
- Ex: código das línguas naturais e o sistema numérico que não permitem nenhuma interpretação arbitrária. Utilizam unidades discretas que são articuláveis e que se podem combinar.
Os códigos analógicos que têm continuidade entre expressão e conteúdo.
- Não há ruptura entre expressão e conteúdo.
Ex: existe uma relação de continuidade entre o número 4 e o gesto que mostra 4 dedos da mão.
Digitalidade e analogia constituem duas formas diferentes de expressão.
- A realidade é por natureza analógica.
- Quando utilizamos códigos digitais para nos referirmos a ela (ex: a língua), segmenta-se de forma fictícia essa realidade, criando lacunas ou vazios que as palavras não cobrem.
O Homem depende sobretudo da comunicação analógica:
- a comunicação digital é importante no que toca à troca de informação sobre os objectos com vista à transmissão do conhecimento…
…mas…
- a comunicação analógica é mais eficaz para assinalar intenções e indicações de humor e para, assim, definirmos a natureza das nossas relações.
COMUNICAÇÃO ANALÓGICA
- Caracteriza-se por ser menos abstracta, pois os sinais são contínuos;
- Os sinais mantêm uma ligação ao referente (são símbolos analógicos);- Tem uma semântica muito rica, mas não a sintaxe apropriada a uma definição inequívoca da natureza das relações, pois não permite discernir quais os sentidos que devem ser atribuidos a determinados signos.
COMUNICAÇÃO DIGITAL
- É considerada um fenómeno discreto e descontínuo, pois um sinal tem necessariamente de acabar para que possa surgir outros que lhe suceda;
- Os sinais que utiliza não têm uma relação natural com a realidade representada (são signos arbitrários);
- Baseia-se numa sintaxe lógica bastante complexa e bastante eficaz, mas não tem uma semântica apropriada à relação.
Relação e conteúdo
Em toda a interacção, a comunicação estabelece-se a um duplo nível:
O conteúdo da mensagem: função referencial
- dimensão semântica que vincula o que se comunica a um referente;
A relação entre os comunicantes: função conotativa
- aqui, o objecto de referência é a própria relação. O aspecto relacional pode ser entendido como uma mensagem a propósito da primeira mensagem, que indica o modo como aquela deve ser interpretada.
- situa-se num nivel meta-comunicativo.
Duplo nível da comunicação
- Não descodificamos apenas o significado da mensagem, também lhe atribuímos um sentido preciso;
- Ambos os planos – significado e sentido – situam-se a diferentes níveis lógicos: o conteúdo da mensagem verbal encontra-se dentro de outra mensagem -metacomunicativa – que se situa a um nível lógico superior e o rotula.
Quer dizer, na comunicação trocam-se expressões a diferente nível lógico:
- umas que indicam se as mensagem são afectuosas, humorísticas, metafóricas, etc.
- outras que devem ser descodificadas como membros de outra classe lógica, de nível inferios, que têm que ver com os conteúdos.
Relação e conteúdo
- Propriedade fundamental da comunicação envolvida na solução: dois níveis de comunicação;
- Ao prisioneiro foram dadas duas ordens de informação muito distintas: a primeira tem que ver com objectos impessoais (as portas) e a outra com seres humanos como emissores de informação.
- O prisioneiro tem de usar informação sobre os objectos (as portas abertas ou fechadas) juntamente com a informação sobre esta informação (a forma como os guardas comunicam a informação certa aos outros).
Confusão de níveis?
O que acontece quando a comunicação e metacomunicação se confudem?
Ex: “Eu estou a mentir”
- Ao nível da comunicação, o enunciado é, simplesmente: “o que estou a dizer é falso”. Mas, ao nível da metacomunicação, isto é, ao nível das regras de interpretação, o enunciado significa: “o que eu estou a dizer é: o que eu vos digo ao primeiro nível da comunicação é estritamente verdade”.
A ESCOLA DE PALO ALTO
A teoria matemática da informação é entendida como um processo linear e sequencial. Concebida a partir de campos técnicos (matemáticas, física e engenharia de telecomunicações). Ignora o facto de a comunicação ser efectuada por indivíduos
-> Os campos técnicos a que se refere seriam sobretudo o armazenamento
Eles não trabalhavam a comunicação reduzindo-a a duas ou mais variáveis do ponto de vista linear. Ela era analisada através das ciências humanas, considerando os níveis de complexidade e de contextos múltiplos. Eles passam a trabalhar com o modelo circular proposto por Nobert Weiner, criador do campo de estudo da cibernética. Sob essa visão, a informação deve poder circular e a sociedade da informação só pode existir sob a condição de troca sem barreiras. O receptor passa a ter um papel tão importante quanto o emissor das mensagens.
Os pesquisadores da Escola de Palo Alto usam a metáfora de uma orquestra para entender a comunicação, ou seja, um processo de canais múltiplos em que o autor social participa a todo momento a partir dos seus gestos, sua visão e até do seu silêncio, na qualidade de um indivíduo participante de uma certa cultura, assim como um músico é parte integrante de uma orquestra.
- Anos 50 : Gregory Bateson e Paul Watzlawick aplicam a teoria cibernética à interacção animal e humana e estudam um modelo circular retroactivo da comunicação;
- 1959 : Fundam o Mental Research Institute de Palo Alto (Califórnia)
A Escola interessou-se pela problemática da comunicação e pelas suas aplicações à patologia mental.
Parte-se de “algumas propriedades simples da comunicação que têm implicações interpessoais fundamentais”.
A pragmática da comunicação humana compreende-se com as suas patologias e perturbações, pelo que é passível de ser aplicada como teoria terapêutica.
->Ideia de cura pela fala – Psicanálise
- A comunicação é um fenómenos de interacção;
- Todo o comportamento social tem um valor comunicativo;
- A comunicação é determinada pelo contexto em que se inscreve;
- Toda a mensagem comporta dois níveis de significação;
- A relação entre interlocutores estrutura-se segundo dois grandes modelos relacionais (simétrico/complementar)
O termo Gesfalt alude ao facto de fenómenos ou formas não poderem ser descritos como a soma de fenómenos menores e independentes, mas como uma totalidade ou estrutura.
- A Escola de Palo Alto toma da Teoria de Gesfalt a premissa de que os seres humanos percebem o mundo que nos rodeia e a comunicação de forma ordenada – em formas.
- Primeiros psicólogos de Gesfalt formularam leis relacionadas com a organização dos campos visuais:
- Proximidade : Os elementos visuais que estão perto uns dos outros unem-se e são facilmente vistos como uma figura. Os objectos mais próximos entre si são percebidos como grupos.
- Semelhança: Objectos similares em forma ou tamanho ou cor são facilmente interpretados como um grupo.
- Continuidade: Uma vez formado um padrão, é provável que ele se mantenha. Os nossos olhos tendem a seguir uma linha na orientação que ela apresenta. Orientação ou inclinação é um dos principais factores de semelhança.
- Fechamento: O cérebro adiciona componentes que faltam para interpretar uma figura parcial como um todo. Possuímos a tendência inata para perceber múltiplos elementos como um grupo ou totalidade.
- Equilíbrio: O equilíbrio é um princípio que afirma que as figuras tendem a assumir a sua forma mais regular. O cérebro espera que os objectos escondidos se pareçam com os não-tapados.
- Assimilação: Experiências passadas criam impressões com significado
- O sistema, como conjunto de elementos inter-relacionados, encontra-se em equilíbrio. Se algum dos seus elementos ou das suas relações se modifica, o equilíbrio modifica-se (peças no xadrez).
- Cada movimento – diacronia – que se produz na passagem do tempo origina uma nova sincronia, um novo equilíbrio. Em oposição aos princípios de análise atomistas baseados em elementos e comportamentos isolados, na concepção sistémica presta-se atenção à ideia de totalidade;
Explicar os processos de comunicação a partir de uma lógica circular subjacente ao fluxo contínuo da comunicação (retro-alimentação).
- Desde que nasce, o indivíduo recebe todo o tipo de pressões que se destinam a moldá-lo a esses padrões sociais. O sujeito tem que reprimir os seus próprios impulsos.
- Os impulsos reprimidos encontram-se detrás dos lapsus linguae,os equivocos ou os sonhos.
- Quando a censura e a repressão são muito fortes, o sujeito pode sofrer de neurose.
- A psicanálise consiste em trtar esses sintomas,pondo-os a descoberto e tornando-os conscientes.
A Freud importa quando:
- Se diz uma palavra em vez de outra;
- Se escreve algo diferente do que se quer escrever;
- Se lê algo diferente do que está escrito;
- Se ouve algo diferente do que foi dito.
- Parte dessa experiência do sujeito que se acumula no inconsciente inflitra-se e aparece como elementos comunicativos não controlados voluntariamente.
- Na comunicação nada é fortuito. Todos os factos e as palavras têm significação
- As mensagens contêm uma grande quantidade de material inconsciente.
UNIVERSIDADE DE CHICAGO III
O conhecimento “familiarizado com” :
- O conhecimento que o indíviduo inevitavelmente adquire no decurso dos encontros pessoas e em primeira mão.
- O conhecimento que estabelece o sentido comum na sociedade.
- Conhecimento superficial, obtido por meio da experiência sensorial ou imediata.
O conhecimento “acerca de” :
- Formal, racional, sistemático.
- Resulta de uma observação de factos que tenham sido provados, procurados e familiarmente classificados.
- Não é uma experiência acumulada mas o resultado de uma investigação sistemática.
A notícia exerce, para o público, as mesmas funções que a percepção cumpre para o indíviduo: não apenas o informa mas, sobretudo, orienta-o, dando “ciência” a cada um, e a todos, daquilo que se passa.
O jornalismo é uma leitura do mundo e deve garantir uma experiência de conhecimento;
A notícia ocupa uma posição privilegiada entre o conhecimento imediato e o conhecimento mediato. A sua função cognitiva relaciona-se com outras funções, tais como a social, política, cultural ou educativa.
As notícias são diferentes de outras formas de conhecimento, dado as notícias serem definidas pela sua qualidade passageira e efémera. A chave para a vivacidade das notícias, comparando com a História, era que informavam como uma série de incidentes isolados, em vez de uma sequência teleológica. Nesse sentido, as notícias eram uma mercadoria pública, não se tornavam notícias por uma leitura individual mas sim pelo facto de serem parte de uma comunicação pública.
Como as notícias tratavam de acontecimentos como se estes fossem isolados, isto implicava que os indivíduos falassem sobre eles; dessas conversações emergia a opinião pública.
Descrição das notícias e da opinião pública:
- Rejeitou a imagem do indivíduo isolado, que lê o jornal sozinho, contempla o significado dos acontecimentos correntes e desenvolve uma opinião individual sobre esses acontecimentos que é transportada para os encontros públicos.
- Em vez disso, a sociologia de meios de comunicação de Park forneceu uma explicação completamente social e pública das notícias.
Se uma notícia for suficientemente interessante para um indivíduo reflectir sobre ela, então esta reflexão será normalmente acompanhada – de facto, muitas vezes precedida – pelo desejo de discutir a notícia com outro indivíduo. E, portanto, as opiniões que os indivíduos desenvolvem das notícias são quase sempre opiniões já públicas, no sentido que emergem de discussões com os outros.
As notícias são sempre sobre o imprevisto e o inesperado – não a importância intrínseca de um acontecimento.
O carácter provocante e imediato das notícias, o seu interesse e importância, leva-as a ser o tema de conversação. As notícias são “o que faz a conversação das pessoas” ou o que provoca a discussão.
Se a notícia excitar a reacção, essa reacção é partilhada. As notícias podem provocar “surpresa, divertimento ou excitação” no leitor para que sejam lembradas e repetidas; elas circulam de forma espontânea, sem qualquer ajuda ou inibições.
A publicação confere às notícias o estatuto de um documento público, que é sancionado pelo público leitor.
As opiniões que os indivíduos desenvolvem das notícias são quase sempre opiniões já públicas, no sentido que emergem de discussões com os outros. Produz-se, assim, a opinião pública : “é na base da interpretação de acontecimentos presentes, isto é, das notícias, que a opinião pública se constitui”.